Israel leva sua guerra contra a Palestina para a era da IA
Israel e redes ligadas ao seu aparato de propaganda passaram a buscar influência sobre sistemas de inteligência artificial usados para produzir respostas sobre a Palestina. Uma investigação sobre o Instituto de Políticas Públicas de Hanover aponta que a entidade teria sido criada como parte de uma operação financiada por Israel. Documentos registrados nos Estados Unidos indicam um caminho financeiro que passa por empresas de publicidade e relações públicas até a LaPam, agência estatal israelense.

Durante décadas, Israel e organizações políticas, grupos de lobby e empresas de relações públicas associadas ao país atuaram para influenciar a forma como a questão palestina é apresentada nos Estados Unidos e em outros países ocidentais. O caso Hanover acrescenta uma frente a essa disputa: a tentativa de inserir material produzido para fins de influência nos sistemas que hoje são utilizados por milhões de pessoas para obter informações.
Investigações recentes apontaram que o Instituto de Políticas Públicas de Hanover se apresentava como um think tank estadunidense, embora não fossem identificados escritórios funcionais, pesquisadores reconhecidos ou uma estrutura institucional correspondente à imagem apresentada. Os elementos reunidos na investigação indicam que a entidade teria sido estruturada para produzir conteúdo destinado a mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial.
Documentos apresentados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros dos Estados Unidos, conhecida pela sigla FARA, rastrearam o financiamento da operação por meio de empresas de publicidade e relações públicas até a LaPam, agência de publicidade estatal de Israel. A Piro Inc., empresa de publicidade sediada em Nova York envolvida na operação, trabalhava com um contrato de serviços de comunicação digital no valor de US$ 900 mil para a conta israelense.
O caso não envolve apenas a produção de material para influenciar leitores. A operação teria sido estruturada para alcançar sistemas que selecionam, organizam e sintetizam informações utilizadas nas respostas fornecidas por ferramentas de inteligência artificial.
Em nove dias, o site associado a Hanover teria publicado mais de 560 mil palavras distribuídas em 124 relatórios apresentados em formato acadêmico. Os textos foram organizados em torno de questões que poderiam ser submetidas a sistemas de inteligência artificial, incluindo perguntas sobre fome em Gaza e sobre a afirmação de que as forças armadas israelenses seriam “o exército mais moral do mundo”.
A Piro apresentou essa metodologia como “Otimização de Histórias por IA”, uma estratégia voltada para aumentar a presença dos conteúdos nos mecanismos de busca e facilitar sua assimilação por grandes modelos de linguagem. O site também incorporou recursos técnicos destinados a permitir que sistemas automatizados encontrassem e processassem o material.
A estratégia, portanto, não buscava apenas convencer uma pessoa que acessasse diretamente o site. O objetivo indicado pela investigação era colocar o conteúdo dentro do conjunto de informações utilizado por sistemas que posteriormente poderiam apresentá-lo a usuários sem que eles conhecessem a origem da operação.
O risco aparece quando uma pessoa pergunta a um chatbot se Israel utilizou a fome como instrumento contra a população de Gaza, quando um jornalista solicita uma avaliação sobre a conduta de Israel diante do direito internacional ou quando um eleitor pede uma explicação sobre a questão palestina.
Se um site criado para uma operação de influência consegue ser incorporado ao ecossistema utilizado pelos sistemas de inteligência artificial, seu conteúdo pode aparecer na resposta produzida pela máquina sem que o usuário saiba que a instituição apresentada como fonte de pesquisa não possui a estrutura que aparenta ter.
Testes realizados pela Politico encontraram material de Hanover nas respostas do ChatGPT e do Perplexity para perguntas relacionadas a Gaza, antissionismo e antissemitismo. O resultado mostra uma dificuldade dos sistemas em identificar que uma organização apresentada como instituição de pesquisa pode ter sido criada para uma finalidade de propaganda.
Um sistema de inteligência artificial processa textos, referências, estatísticas e afirmações. A existência desses elementos não garante que a instituição que os produziu seja legítima ou independente. Quando um conteúdo é produzido para facilitar sua descoberta por mecanismos de busca e sua assimilação por modelos de linguagem, uma operação de propaganda pode adquirir aparência de fonte de pesquisa.
A disputa em torno da Palestina também envolve a linguagem utilizada para descrever os acontecimentos. Durante décadas, termos como “segurança”, “terrorismo” e “autodefesa” ocuparam espaço central no discurso político sobre Israel, enquanto questões como ocupação, expansão de assentamentos, desapropriação, bloqueio e autodeterminação palestina foram submetidas a disputas políticas.
A expansão das redes sociais e do jornalismo independente modificou parte desse cenário. Vídeos e relatos produzidos por palestinos permitiram que informações de Gaza e dos territórios ocupados chegassem ao público sem depender apenas das organizações de mídia estabelecidas.
A disputa passou então a envolver também os sistemas responsáveis por organizar e apresentar informações. A tentativa de inserir conteúdos direcionados nesses sistemas representa uma mudança na forma de atuação das operações de influência.
Os documentos apresentados sob a FARA possuem papel central na reconstrução da operação. Investigadores rastrearam a atividade de Hanover a partir dos registros apresentados pela Piro, que descreviam os serviços executados para o site do instituto. O percurso documental levou à operação alemã da Havas Media, que, conforme os registros citados na investigação, administrava uma conta de valor maior ligada ao governo israelense, chegando depois à LaPam.
A documentação também coloca em questão a apresentação de uma operação financiada por um governo estrangeiro como produção independente de uma instituição estadunidense. Os registros da FARA existem para permitir que o público identifique atividades realizadas nos Estados Unidos em nome de interesses estrangeiros.
O caso ocorre dentro de um ambiente informacional no qual a Palestina já é objeto de disputa entre governos, organizações políticas, empresas de comunicação, plataformas digitais e instituições acadêmicas. A utilização de sistemas de inteligência artificial acrescenta uma camada na qual o usuário pode receber uma resposta sem ter contato direto com as fontes que formaram aquela resposta.
Os sistemas de inteligência artificial não estabelecem sozinhos uma visão independente dos acontecimentos. Eles dependem de grandes conjuntos de informações produzidos e publicados por pessoas, instituições, empresas e governos. A introdução coordenada de material em determinados ecossistemas pode alterar o conjunto de informações disponível para esses sistemas.
A questão palestina apresenta um volume documental que inclui décadas de ocupação, assentamentos, deslocamentos, restrições, ataques, crises humanitárias, negociações diplomáticas e investigações internacionais. A forma como esse material é selecionado e apresentado interfere na compreensão dos acontecimentos.
A investigação sobre Hanover também levanta questões para empresas que desenvolvem sistemas de inteligência artificial. Entre elas estão a capacidade de identificar instituições inexistentes, detectar operações coordenadas de influência e avaliar a origem dos materiais utilizados como fontes.
Mecanismos de busca enfrentam questão semelhante ao precisarem distinguir uma instituição de pesquisa com existência verificável de um site criado para manipular sua classificação. Jornalistas e pesquisadores também precisam verificar a estrutura institucional, financiamento e origem dos materiais antes de tratá-los como produção acadêmica independente.
A legislação estadunidense sobre agentes estrangeiros fornece parte da documentação necessária para identificar essas relações, mas o funcionamento dos sistemas de inteligência artificial ocorre em escala que ultrapassa os mecanismos tradicionais de transparência.
O caso Hanover também expõe a adaptação de estruturas de lobby e relações públicas a uma tecnologia que passou a ocupar espaço na formação da opinião pública. A disputa deixa de ocorrer apenas no Congresso, nas emissoras de televisão, nos jornais, nas universidades e nas redes sociais e passa a envolver os sistemas utilizados para produzir respostas sobre acontecimentos políticos.
A operação atribuída ao entorno israelense utilizou uma instituição apresentada como think tank, produção em escala de centenas de milhares de palavras, linguagem acadêmica, referências documentais, estatísticas, tabelas e gráficos. Ao mesmo tempo, o material teria sido preparado para facilitar sua circulação por mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial.
O resultado identificado nos testes da Politico mostra que conteúdos associados a Hanover chegaram a respostas produzidas pelo ChatGPT e pelo Perplexity sobre Gaza, antissionismo e antissemitismo.
A investigação coloca no centro da disputa informacional uma questão que antes estava concentrada nos meios tradicionais de comunicação: quem produz os conteúdos que os sistemas de inteligência artificial encontram, selecionam e utilizam quando respondem a perguntas sobre a Palestina.























































