Ucrânia cria escolas militares para filhos de combatentes mortos
A Ucrânia criou cinco internatos que combinam ensino convencional, treinamento militar e acompanhamento do luto para filhos de militares mortos, desaparecidos ou incapacitados. A medida foi revelada pelo The Washington Post em reportagem publicada em 27 de setembro de 2026, em meio à necessidade de reposição de efetivos das Forças Armadas ucranianas. As instituições já reúnem cerca de 475 cadetes e encaminham estudantes para possíveis carreiras nas forças de segurança, Guarda Nacional, polícia e serviços de emergência.

Os estabelecimentos funcionam em regime de internato durante dois anos e foram criados pelo Ministério do Interior da Ucrânia. De acordo com o Washington Post, aproximadamente metade dos estudantes perdeu um dos pais, enquanto outros possuem familiares desaparecidos ou incapacitados em decorrência dos combates. O programa combina disciplinas escolares, treinamento militar e acompanhamento psicológico relacionado ao luto.
A reportagem acompanhou dois irmãos gêmeos de 15 anos, Viktor e Vitalii, que perderam o pai durante os combates e passaram a frequentar uma dessas escolas. O modelo foi descrito pelo jornal como uma combinação de acompanhamento do luto e treinamento militar, enquanto a estrutura educacional prepara os alunos para exames de ingresso universitário no segundo ano.
O Washington Post informou que os estudantes não são obrigados formalmente a ingressar nas forças de segurança. Funcionários das escolas afirmaram que não existe pressão para que os cadetes escolham uma carreira militar, mas a própria estrutura dos estabelecimentos direciona os jovens para instituições de segurança ucranianas que enfrentam necessidade de novos integrantes.
A reportagem também registra que os alunos podem seguir para a Guarda Nacional, polícia e serviços de emergência. O modelo, portanto, não se limita ao treinamento físico ou à educação convencional, mas cria uma trajetória institucional que aproxima crianças afetadas pela morte ou desaparecimento de familiares das estruturas estatais de segurança.
A necessidade de reposição de efetivos aparece como parte do contexto da política. Conforme dados citados pelo Washington Post, autoridades ucranianas estimam que as Forças Armadas precisam de cerca de 30 mil novos recrutas por mês para manter o tamanho atual de suas forças.
O número oficial de mortos também permanece objeto de disputa. Em fevereiro de 2026, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que 55 mil militares ucranianos haviam morrido desde o início da invasão russa em grande escala, acrescentando que havia um número elevado de desaparecidos.
Em agosto de 2026, o Conselho Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas informou que mais de 114 mil civis e militares estavam registrados oficialmente como desaparecidos. O dado foi atribuído ao Ministério do Interior da Ucrânia.
Estimativas externas apresentam números superiores aos divulgados pelo governo. O Center for Strategic and International Studies (CSIS), sediado nos Estados Unidos, estimou entre 100 mil e 140 mil militares ucranianos mortos até o fim de 2025, enquanto o total de baixas, incluindo mortos, feridos e desaparecidos, teria alcançado entre 500 mil e 600 mil.
Outro levantamento baseado em registros públicos havia identificado mais de 92 mil militares ucranianos mortos, além de mais de 89 mil desaparecidos e cerca de 4.500 prisioneiros de guerra. Esses números não representam uma contagem oficial do governo ucraniano e utilizam critérios próprios de identificação das vítimas.
A dimensão das perdas também aparece na necessidade de formação de adolescentes para funções relacionadas à segurança. Em fevereiro de 2026, o próprio Washington Post informou que mais de 385 mil adolescentes ucranianos estavam matriculados em um curso escolar chamado “Protecting Ukraine”, voltado à preparação para situações de guerra e ameaças à segurança.
O novo sistema de internatos amplia essa lógica para um grupo atingido diretamente pelas perdas humanas. Filhos de militares mortos, desaparecidos ou incapacitados passam a receber formação dentro de instituições administradas pelo Estado, ao mesmo tempo em que recebem apoio para lidar com as consequências familiares dos combates.
O texto publicado pelo Washington Post registra que muitos estudantes demonstram disposição para seguir os caminhos profissionais apresentados pelas escolas. A adesão é relacionada pelo jornal ao vínculo criado com familiares mortos ou desaparecidos e ao sentimento de dever em relação ao país.
A política ocorre também em um ambiente de militarização da educação ucraniana. A existência de cursos de defesa para centenas de milhares de adolescentes e de internatos voltados aos filhos de militares coloca a formação da juventude dentro de uma estrutura estatal diretamente relacionada à preparação para a continuidade das hostilidades.
A reportagem do Washington Post também registra iniciativas de organizações civis para oferecer tratamento relacionado ao trauma aos estudantes. A organização GEN Ukrainian, por exemplo, trabalha com acompanhamento psicológico de jovens afetados pela perda de familiares, diante das dificuldades enfrentadas pelas instituições responsáveis pelos alunos.
O processo ocorre enquanto a Ucrânia enfrenta dificuldades para manter seus efetivos militares. A necessidade declarada de aproximadamente 30 mil novos recrutas mensais transforma a formação de jovens em parte de uma política de reposição de pessoal, ainda que as escolas não imponham formalmente aos estudantes a obrigação de ingressar nas forças de segurança.
O fenômeno descrito pelo Washington Post também permite compreender a dimensão social das perdas produzidas pelos combates: os filhos dos mortos passam a integrar instituições criadas pelo próprio Estado para formar uma nova geração vinculada às estruturas militares e de segurança, enquanto suas famílias continuam convivendo com mortes e desaparecimentos registrados desde 2014.























































