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Vance admite redução do enriquecimento nuclear como saída para acordo com o Irã

há 4 dias
6 min de leitura

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou que o Irã poderia reduzir de forma “significativa” sua capacidade de enriquecimento de urânio como parte de um acordo para encerrar a guerra. A declaração abre espaço para uma exigência diferente da posição anterior de Washington, que pressionava Teerã a abandonar completamente o enriquecimento. Ao mesmo tempo, o governo estadunidense mantém sanções, bloqueio naval e ameaças militares, enquanto o governo iraniano questiona se Washington pretende negociar ou usar as conversas para ampliar a pressão sobre o país.


© Kevin Lamarque I Reuters
© Kevin Lamarque I Reuters

Em entrevista à Reuters, Vance afirmou que o Irã precisa demonstrar que não pretende desenvolver armas nucleares por meio de mudanças em seu programa de enriquecimento. “Se você não quer uma arma nuclear, por que precisa de combustível enriquecido a 60%?”, questionou o vice-presidente estadunidense. Em seguida, declarou: “Se você quer demonstrar o compromisso de não construir uma arma nuclear, não construa combustível altamente enriquecido. Essa é uma questão fundamental.”


O enriquecimento de urânio permite sua utilização como combustível para reatores nucleares e, em níveis mais elevados, pode produzir material adequado para armas nucleares. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) havia informado que o Irã enriquecera urânio a 60%, abaixo dos cerca de 90% associados à produção de armas nucleares, e sua avaliação de maio de 2025 não identificou indícios críveis de um programa nuclear estruturado.


Vance também afirmou que Washington mantinha conversas com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian e com o ministro das Relações Exteriores, Seyed Abbas Araghchi. O vice-presidente acrescentou que “não está totalmente claro como o país deles toma decisões”. A declaração ocorre enquanto autoridades em Teerã questionam a disposição estadunidense para uma negociação, diante da entrada do confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã em seu oitavo mês.


O secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, adotou uma posição de pressão sobre Teerã durante declarações feitas a jornalistas em Atenas. “O Irã não pode ter uma arma nuclear, simples assim, ponto final”, afirmou. Rubio também declarou que o Irã havia “perdido completamente o controle” do Estreito de Ormuz e que sua economia estava “em queda livre total e completa”, atribuindo a situação às sanções impostas contra o país.


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também manteve a ameaça como instrumento de pressão. Segundo o texto publicado pela Al Jazeera em 7 de outubro de 2026, Trump afirmou que a guerra terminaria “de um jeito amigável ou de um jeito nada amigável”. A declaração foi feita enquanto integrantes do governo estadunidense defendem que Teerã aceite restrições sobre seu programa nuclear.


Em Teerã, Pezeshkian afirmou na segunda-feira que as negociações com Washington eram “inúteis”. Durante reunião com o ministro das Relações Exteriores da Armênia, o presidente iraniano acusou os Estados Unidos de utilizar as conversas como instrumento de pressão contra a República Islâmica do Irã.


“O nosso problema com os Estados Unidos é que, sempre que nos sentamos à mesa de negociações, a guerra nos é imediatamente imposta”, declarou Pezeshkian. O presidente iraniano acrescentou: “Eles nos atacaram três vezes após as negociações até agora; isso demonstra que não buscam o diálogo. Pelo contrário, seu objetivo é derrubar a República Islâmica do Irã”, segundo a agência oficial iraniana IRNA.


Pezeshkian também afirmou que as negociações não poderiam produzir resultados diante de uma política baseada em ataques, sanções, ameaças e descumprimento de compromissos. “Com um inimigo que recorre diariamente a assassinatos, sanções, pressão e ameaças - e que quebra suas promessas - as negociações tornam-se inúteis, e nossa nação não aceitará tal abordagem”, declarou.


Apesar da posição apresentada por Pezeshkian, Seyed Abbas Araghchi indicou que as negociações ainda poderiam prosseguir sob determinadas condições. Em reunião com embaixadores estrangeiros em Teerã, em 4 de outubro, o ministro afirmou: “Somente negociações baseadas na justiça e na equidade” poderão pôr fim ao confronto. A declaração preserva a possibilidade de um acordo, mas condiciona sua construção a princípios que Teerã considera necessários para a negociação.


A posição de Araghchi ocorreu após uma proposta iraniana apresentada durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no final de setembro. O plano previa a reabertura do Estreito de Ormuz e a retomada das negociações, mas foi rejeitado posteriormente por Trump.


A proposta iraniana mais recente buscava dar continuidade ao memorando de entendimento assinado por Irã e Estados Unidos em 17 de junho, que havia produzido uma interrupção temporária das hostilidades antes de fracassar. A nova iniciativa modificava a sequência das etapas previstas e reduzia o prazo para a implementação de medidas destinadas a abrir caminho para uma solução negociada.


O plano previa o fim dos combates em todas as frentes, incluindo a ofensiva israelense no Líbano. Em seguida, Washington suspenderia o bloqueio naval e as sanções sobre o petróleo iraniano, além de liberar ativos iranianos congelados. O Estreito de Ormuz seria reaberto após sete dias, e somente depois começariam negociações sobre o programa nuclear iraniano.


A sequência proposta expõe uma diferença entre as prioridades de Washington e Teerã. Enquanto o governo estadunidense concentra sua pressão sobre o enriquecimento de urânio e a possibilidade de desenvolvimento de uma arma nuclear, o governo iraniano coloca entre suas exigências o fim das sanções, do bloqueio naval e dos ataques, além da liberação de ativos congelados.


Simon Mabon, professor de relações internacionais da Universidade de Lancaster, afirmou à Al Jazeera que a mudança na formulação de Washington sobre o enriquecimento pode indicar uma tentativa de flexibilizar a posição estadunidense, mas não resolve as questões colocadas por Teerã. “Os EUA estão tentando suavizar sua posição sobre a questão nuclear com os iranianos, mas para os iranianos, esse não é o verdadeiro ponto de atrito. O que importa é o bloqueio, o levantamento das sanções, o desbloqueio de ativos e o fim dos conflitos em toda a região.”


A possibilidade de um acordo que permita algum nível de enriquecimento também remete ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), firmado em 2015 durante o governo do presidente estadunidense Barack Obama. O acordo impôs limites ao programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções, mas Trump retirou os Estados Unidos do pacto em 2018.


Para Mabon, um acordo nuclear já esteve ao alcance antes da atual escalada militar. “Pode-se argumentar que um acordo nuclear esteve ao nosso alcance em vários momentos. Tínhamos o JCPOA, é claro, mas os iranianos estavam prestes a concordar com algo semelhante em fevereiro e janeiro. As negociações mediadas na época sugeriam que um acordo nuclear poderia ser alcançado, e ainda assim, a decisão foi tomada de entrar em guerra.”


O programa nuclear, porém, não constitui a única questão colocada por Teerã. Mabon afirmou que o governo iraniano exigiria compromissos relacionados ao levantamento das sanções, ao bloqueio naval, ao desbloqueio de ativos e à situação militar regional. “Acredito que os iranianos exigiriam o levantamento das sanções, o fim do bloqueio e o desbloqueio de ativos, ou pelo menos um roteiro para isso, juntamente com o fim do conflito no Líbano e um cessar-fogo permanente no Golfo.”


O Estreito de Ormuz permanece no centro das negociações. A afirmação de Rubio de que o Irã perdeu o controle da hidrovia contrasta com os dados sobre a recuperação do transporte de petróleo e com a continuidade dos ataques contra embarcações que atravessam a região.


Na terça-feira, 12 tripulantes de um petroleiro com bandeira do Panamá ficaram feridos após serem atingidos por um projétil de origem desconhecida durante a passagem pelo estreito, informou o Ministério das Relações Exteriores da Índia. O episódio ocorreu enquanto os fluxos de petróleo pelo Golfo Pérsico apresentavam recuperação em relação aos níveis registrados antes da guerra.


Dados da empresa de inteligência marítima Kpler indicaram que o fluxo de petróleo pelo Golfo Pérsico, excluindo o Irã, alcançou mais de 81% dos níveis anteriores à guerra em setembro. As exportações de petróleo bruto do Oriente Médio também ultrapassaram os níveis pré-guerra durante 14 dias daquele mês.


A recuperação do fluxo marítimo reduz parte da pressão econômica sobre Washington para alcançar um acordo, mas a permanência de ataques contra embarcações mantém a segurança do Estreito de Ormuz entre os pontos de disputa. Para Mabon, a própria mudança na formulação estadunidense sobre o enriquecimento de urânio pode estar relacionada às incertezas sobre o grau de recuperação do tráfego marítimo na hidrovia.


“Se os americanos tivessem certeza de que o estreito estava devidamente aberto, estariam pressionando por um acordo mais rigoroso”, afirmou Mabon à Al Jazeera.

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